UMA ESPERANÇA, DE
CLARICE LISPECTOR
Ana Júlia
“O mal é que
minha esperança ou é
Inexistente ou
forte demais –
Esperança forte
demais é infantil. ”
(LISPECTOR, Clarice)
LISPECTOR, Clarice. Uma esperança. Disponível em: http://claricelispector.blogspot.com.br/2008/07/uma-esperana.html
Uma Esperança é um conto de Clarice
Lispector, escritora nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira. É
reconhecida como uma das maiores escritoras do século XX. “A Hora da Estrela”
foi seu último livro publicado enquanto ainda era viva. Clarice destaca-se pelo
seu modo de escrever excêntrico e profundo.
O
conto revela uma simples situação do cotidiano encorpada de sensações e
pensamentos, o que é comum nas obras de Clarice. Na aparição de uma esperança,
emerge um mar de diferentes visões. Da criança, sempre curiosa, querendo
preservar e entender o pequeno inseto. Da mãe, surge uma indagação sobre as
diferentes esperanças e suas surpreendentes semelhanças.
Como
a esperança inseto, a outra esperança pousa e por ali fica. A autora cita a
todo tempo como essa esperança é secreta e silenciosa, muitas vezes ilusória. A
criança aponta as características da esperança relacionando-a indiretamente.
“-Ela é burrinha. Comentou o menino
-Sei disso, respondi um pouco trágica.
-Está agora procurando outro caminho, olhe,
coitada, como ela hesita.
-Sei, é assim mesmo.
-Parece que esperança não tem olhos, mamãe,
é guiada pelas antenas.
-Sei, continuei mais infeliz ainda”
(LISPECTOR, Clarice.)
A esperança, a outra, também não possui
olhos. É guiada por impulsos e sentimentos incontroláveis. É guiada pelo que
ouve. Às vezes, também não é muito inteligente. Mesmo após tentativas
fracassadas, ela continua ali, persistindo.
Também pode ser cega, surda e muda.
Insiste e continua mesmo quando ninguém mais acredita. É estranha e faz criar
sonhos. É mágica, quase não se repara a sua presença. Silenciosa e repentina.
Aparece do nada! Ora, toca e não se faz percebida. Quando nota-se sua
existência, nada se fez, nada se faz. Deixe a esperança ali, parada, coitada,
agindo de corpo e alma.
Durante a observação da curiosa
esperança, surge uma aranha motivada a acabar com ela. Rapidamente as crianças
surgem com vassoura para matá-la. Aranha que desce na sua teia invisível se
aproximando cada vez mais da esperança.
Teia
que vem se juntando há tempos, escondida, atrás do quadro esperando por sua
chance de capturar e destruir a esperança alheia. Porém morta a aranha, a esperança
pôde se instaurar e pousar na casa. “Não havia dúvida: a esperança pousara em
casa, alma e corpo. ” (LISPECTOR, Clarice.)
Clarice Lispector mostra no conto como uma
simples passagem de uma esperança pode fazer toda uma história filosófica se
desenrolar na cabeça da autora. Não obstante de outras obras suas, Clarice
enfoca a subjetividade humana. Desde pequena já tinha essa essência; quando
mandava, com sete anos, contos para o jornal que nunca foram publicados, por
não relatarem um acontecimento.
“Como podemos notar neste
depoimento,
Já desde tenra idade Clarice
revelava um
traço insistente que se tornaria
marca
Realmente, em
lugar de um texto
que narre fatos e
acontecimentos,
ela preferirá
sempre escutar
as ressonâncias
dos fatos
na consciência do indivíduo. ”
(Trecho retirado
do artigo “Considerações a respeito do
existencialismo na obra de Clarice Lispector.)
Em suma, as obras de Clarice
Lispector trazem ao leitor uma nova perspectiva de coisas aparentemente
insignificantes da vida. Desde um sagui, passando por um empréstimo de um
livro, até uma simples esperança. E é por essa identidade única, que Clarice
Lispector foi e continua sendo uma das maiores e mais importantes escritoras
que o mundo teve o prazer de conhecer.
Referências bibliográficas
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